A PANDEMIA E OS SAUDOSOS DO ATRASO
Houve no passado uma pandemia cujo enfrentamento foi cercado de polêmica – parecida com a que estamos vivenciando com a Covid19. A cólera, que matou milhões pelo mundo no século XIX, chegou ao Brasil no final do ano de 1855 e rapidamente se espalhou. Em Pernambuco entrou em janeiro de 1856 pelo Agreste meridional, vindo de Alagoas.
Falei lá em cima em polêmica e volto para explicar que desde 1820 a ciência médica anterior à revolução microbiológica de Louis Pasteur (1822/1895) estava rachada por uma disputa entre duas correntes, cada uma com sua visão sobre qual a melhor forma de combater epidemias.
De um lado ficavam os contagionistas, defensores de medidas intervencionistas como a adoção dos cordões sanitários, quarentenas e a instalação de hospitais para isolamento, chamados de lazaretos. Do outro lado apareciam os anticontagionistas, que se opunham aos controles portuários, em favor de medidas preventivas de limpeza, saneamento e desinfecção.
O problema é que a cristalização destas posições muitas vezes dividia as autoridades e ora retardava ações necessárias, ora promovia um conjunto confuso de intervenções que não se completavam nem em uma direção nem na outra. Gastavam-se esforços, recursos e não se chegava a lugar nenhum.
No caso da pandemia de cólera de 1956, o resultado foi desastroso. Pra que se tenha ideia, considerando a população da época (9 milhões de habitantes) e os 204 milhões atuais, a perda de 32 mil vidas equivaleria à morte de 650 mil pessoas no Brasil de hoje, ou à eliminação das populações de Olinda e Caruaru, somadas.
Vistas as semelhanças, resta assinalar a grande diferença pois, ao contrário do que ocorria no século XIX, quando a ciência e a prática médica estavam divididas, agora não há qualquer divergência em base científica sobre como proteger a população do contágio pelo Convid19.
Todas as vozes responsáveis, na academia ou nas instituições médicas, sem exceção, defendem o isolamento social como medida prioritária para reduzir a velocidade e a extensão do contágio, evitando a superlotação das unidades e a perda de vidas por falta de leito, equipamento ou pessoal.
Ora, se há unidade de visão quando se aborda a questão pela ótica da ciência, onde está a polêmica? Em que polo e sobre o que base se sustentam os argumentos opostos? A resposta, infelizmente, é em nenhuma base racional ou técnica. O que se vê é um debate entre quem estudou e tem conhecimento de causa e o presidente da República e seus áulicos armados somente de ideologia (no pior sentido do termo) e de crendices.
Não têm respaldo nem mesmo na ciência econômica – por mais que invoquem argumentos econômicos para defender a suspensão das medidas de isolamento. Até porque, nenhuma estrutura econômica se sustenta no cenário apocalíptico de uma epidemia que mate centenas de milhares de pessoas, perdas humanas inaceitáveis.
Portanto, vamos deixar as práticas e as ideias do passado onde têm que ficar: nos livros de história. Vamos viver o presente, construindo o futuro. E, para isso, vamos garantir que fique em casa quem puder ficar em casa; vamos tratar os doentes com o conhecimento disponível, atacando os sintomas e garantindo a sobrevivência dos pacientes; e vamos acelerar as pesquisas para que tenhamos o mais rapidamente possível vacinas e medicamentos eficazes.
Qualquer conversa diferente desta é somente apego ao passado e saudade do atraso.
Ilustração: contagionistas e anticontagionistas disputam paciente em defesa de suas teses
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